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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Faust 09



 

DIRECTOR:

Por hoje, de palavras já basta,

Acção é o que agora quero ver!

Enquanto torneais a prosa gasta

Coisas mais úteis podem acontecer.

De que serve falar da inspiração,

Se ao pusilânime ela nunca aparece?

Se é de poetas a vossa condição,

É a poesia que comandar merece!

Sabeis bem do que nós carecemos,

Um trago forte é tudo o que queremos;

Preparem sem demora essa poção

Que o que hoje não se fizer, amanhã será vão,

Nem um dia vamos desperdiçar.

E agora já a vossa decisão

O possível pela trança há­de agarrar,

Para depois o não deixar escapar

E prosseguir, que essa é sua missão.

Bem sabeis como os nossos empresários

Põem em cena o que lhes passa pela cabeça;

Por isso, não poupemos nesta peça

Nem máquinas, nem truques, nem cenários.

Usemos as duas luminárias,

Em estrelas sejamos generosos,

Não falta água, fogo, montes rochosos,

Nem tão­pouco aves e alimárias.

Vamos abrir­vos neste humilde barracão

A perspectiva de toda a Criação,

Seguindo em ritmo certo o curso eterno,

Do Céu para a Terra e desta para o Inferno.

 

Faust 08


 

 

ACTOR CÓMICO:

Da mocidade, amigo, precisas tu, e bem,

Quando o inimigo te aperta na peleja,

Se, insinuantes, a ti se prenderem

Mulher ou moça que se veja,

Quando da meta que só o esforço alcança

A coroa de louros já te acenar,

Quando, depois de desvairada dança,

As noites em festins fores afogar.

Mas fazer vibrar com graça e ânsia

As cordas da conhecida lira,

E perseguir em fantasia e errância

O alvo da nossa própria mira —

Essa é, velhos senhores, vossa missão,

E isto em nada vos afecta a dignidade.

A idade não nos torna infantis, não,

Descobre em nós crianças de verdade.

 

Faust 08


 

 

ACTOR CÓMICO:

Da mocidade, amigo, precisas tu, e bem,

Quando o inimigo te aperta na peleja,

Se, insinuantes, a ti se prenderem

Mulher ou moça que se veja,

Quando da meta que só o esforço alcança

A coroa de louros já te acenar,

Quando, depois de desvairada dança,

As noites em festins fores afogar.

Mas fazer vibrar com graça e ânsia

As cordas da conhecida lira,

E perseguir em fantasia e errância

O alvo da nossa própria mira —

Essa é, velhos senhores, vossa missão,

E isto em nada vos afecta a dignidade.

A idade não nos torna infantis, não,

Descobre em nós crianças de verdade.

 

Faust 07


 

 

POETA:

Para isso terás de me trazer

Os anos do meu próprio devir,

Quando uma fonte de canções a nascer

Brotava em mim sem se extinguir,

Quando névoas me escondiam o mundo

E inda o botão milagres prometia,

Quando eu as mil flores colhia

Que enchiam o vale até ao fundo.

Não tendo nada, bastante tinha então:

A sede de verdade e o gosto da ilusão.

Dá­me de novo as paixões sem temor,

A funda e dolorosa felicidade,

Do ódio a força, o poder do amor:

Traz­me de volta a minha mocidade!

domingo, 29 de setembro de 2024

Faust 06


 

 

ACTOR CÓMICO:

Usai então essa força de magia,

E conduzi os negócios da poesia

Como quem vive aventura de amor.

Guia­nos o acaso, ao sentir e esperar

Segue­se, passo a passo, o envolvimento;

Cresce o prazer, mas logo há desencanto,

Mal nos esquecemos, e a dor entra no lance,

E sem darmos por isso… é um romance.

Vamos pôr tal espectáculo em cena,

Descei ao fundo da vida humana plena!

Todos a vivem, conhece­a pouca gente,

E onde a apanhardes é que ela é interessante.

Imagens vivas, com pouca claridade,

Muita ilusão e um grãozinho de verdade —

Ingredientes da poção perfeita

Que todo o mundo edifica e deleita.

Então, da juventude a flor mais bela

Acorrerá à peça, a ouvir sabedoria,

E as almas mais sensíveis bebem nela

Doce alimento da melancolia;

Vibrará então esta ou aquela corda,

E o que lhes vai nos corações acorda.

Esses estão inda livres para rir e para chorar,

Gostam das emoções, alegra­os a ilusão;

O homem feito é mau de contentar,

Mas os que crescem sempre gratos serão.

Faust 05


 

 

POETA:

Procura outro escravo para te servir!

Deve então o poeta infringir

Por ti sem pejo o sagrado direito

De ser homem, da Natura o favor?

Como põe ele os corações a arder?

E os elementos, como os molda a seu jeito?

Não será a harmonia que lhe mana

Da alma e o mundo ao seu coração chama?

Enquanto a Natureza fia o fio

No seu fuso infinito, indiferente,

E um sem­número de seres em desvario

Se faz ouvir, dissonante e demente —

Quem anima e divide a sempre igual

Sequência e a dá ritmicamente?

Quem sagra a parte no rito universal,

E a faz vibrar em acordes imponentes?

Quem desenfreia a fúria das paixões?

Quem põe em fogo nas almas os poentes?

Quem esparge na Primavera os botões

De belas flores nas veredas dos amantes?

Quem faz de folhas sem significado

Coroas de glória, para o valor distinguir?

Quem garante o Olimpo, para os deuses unir?

O génio humano, no poeta revelado.

Faust 05


 

 

POETA:

E não vedes como é vil tal mister?

Como é indigno do artista que se preza?

A fancaria de um amador qualquer

É para vós lei, já vejo, não vos lesa!

DIRECTOR:

Essa censura a mim pouco me afecta:

Quem quiser atingir a sua meta

Tem de servir­se da melhor ferramenta.

Lembrai­vos que esta massa não é cinzenta,

Pensai, ao escrever, a quem fazeis assédio!

Alguns vêm trazidos pelo tédio, Outros comeram que nem animais,

E quem me parece mais sem remédio São os que vêm de ler os jornais.

Vêm por vir, como para as mascaradas, Só a curiosidade os faz voar;

As damas pavoneiam­se, enfeitadas,

E representam sem se fazer pagar.

Com que sonhais nos píncaros da poesia?

Que vos alegra na casa cheia de gente?

Vede os mecenas! Desta fidalguia

Metade é bronca, metade é indiferente.

Depois da peça, este quer jogar cartas,

Outro, uma noite louca com uma pega.

E para tal gente ides bater às portas

Das musas, pobres tolos? Já chega!

Ouvide bem: dai mais e sempre mais,

E assim o alvo não ireis errar.

Procurai confundir, que contentar

Os homens não conseguireis…

Que é isso agora? Arrebatamento ou dor?


Faust 05




 

 

POETA:

E não vedes como é vil tal mister?

Como é indigno do artista que se preza?

A fancaria de um amador qualquer

É para vós lei, já vejo, não vos lesa!

DIRECTOR:

Essa censura a mim pouco me afecta:

Quem quiser atingir a sua meta

Tem de servir­se da melhor ferramenta.

Lembrai­vos que esta massa não é cinzenta,

Pensai, ao escrever, a quem fazeis assédio!

Alguns vêm trazidos pelo tédio, Outros comeram que nem animais,

E quem me parece mais sem remédio São os que vêm de ler os jornais.

Vêm por vir, como para as mascaradas, Só a curiosidade os faz voar;

As damas pavoneiam­se, enfeitadas,

E representam sem se fazer pagar.

Com que sonhais nos píncaros da poesia?

Que vos alegra na casa cheia de gente?

Vede os mecenas! Desta fidalguia

Metade é bronca, metade é indiferente.

Depois da peça, este quer jogar cartas,

Outro, uma noite louca com uma pega.

E para tal gente ides bater às portas

Das musas, pobres tolos? Já chega!

Ouvide bem: dai mais e sempre mais,

E assim o alvo não ireis errar.

Procurai confundir, que contentar

Os homens não conseguireis…

Que é isso agora? Arrebatamento ou dor?

Faust 04


 

 DIRECTOR:

E, acima de tudo, muita acção!

Quem cá vem é para ver, quer sensação.

Se lhe enchermos o olho com enredos,

A multidão fica de boca aberta,

E vós ganhais com isso fama a rodos,

Sois homem de sucesso, pela certa.

A massa só pela massa se conquista,

Cada um colhe aí o que lhe agrada.

Quem muito oferece, a cada um assiste,

E toda a gente sai daqui encantada.

Dais uma peça? Então dai­a em pedaços!

Com tal guisado não tereis fracassos:

É fácil de servir, de imaginar.

De que vos serve um todo apresentar?

O público desmembra­o sem remorsos.

Faust 03


 

 

 

ACTOR CÓMICO:

Vida futura! Sempre essas larachas!

Se eu me ocupasse do futuro, quem achas

Que iria divertir nosso presente?

Ele quer distracção, e distracção terá,

Que a presença viva de um rapaz decente

Também é qualquer coisa — ou não será?

Quem souber dar­se com graça e agrado,

Não é o público que o há­de azedar;

Prefere até um círculo alargado

Para mais seguramente o emocionar.

Coragem, pois, mostrai vossa mestria:

Razão, engenho, sentimento, paixão

Deixai soar, e os coros da fantasia,

E que a loucura não falte, atenção!

Faust 02


 

 

POETA:

Ah, não me fales dessa turba sem rosto!

Estiola o espírito ante a sua imagem.

Esconde­me esse tropel, que a contragosto

Nos arrasta numa grande voragem.

Não, leva­me ao refúgio que foi posto

No céu para o poeta e sua miragem,

Onde Amor e Amizade, com divina mão,

Cultivam o bem­estar do coração.

Ah, o que aí de mais fundo nos nasceu,

O que a boca balbuciou, expectante,

O que aqui fracassou e ali venceu,

Leva­o, devora­o o caótico instante.

Só quando a roda dos anos o poliu

Surge enfim já perfeito e imponente.

A aparência brilha, mas não dura,

Só o autêntico terá vida futura.

Faust 01


DIRECTOR:

Vós dois, cujo conselho sempre

Em apertos e apuros me acompanha,

Dizei­me: nestas terras de Alemanha,

A nossa empresa que futuro tem pela frente?

Quero o público aqui bem animado,

Pois ele vive e a nós nos faz viver.

Estão montados os postes e o tabuado,

E toda a gente grande festa quer ter.

Já estão a postos, de sobrolho no ar,

Esperando o milagre que lhes vamos dar.

Sei bem do povo ganhar o favor;

Mas nunca estive em tão grande embaraço:

O que vêem não será do melhor,

Mas leram mais do que imaginar posso.

Que iremos dar­lhes hoje de novo e vivo,

De divertido e pleno de sentido?

Pois se há coisa que eu goste de ver,

É a multidão que acorre ao nosso piso,

E não se importa de mil penas sofrer

Para passar os portões do paraíso;

De dia ainda, nem quatro horas são,

Já lutam para chegar à bilheteira,

Como em tempo de fome por um pão,

Quase se matam por uma cadeira.

Milagre assim, com um público tal,

Só o poeta o faz. Amigo, vale?


Faust 01


 

DIRECTOR:

Vós dois, cujo conselho sempre

Em apertos e apuros me acompanha,

Dizei­me: nestas terras de Alemanha,

A nossa empresa que futuro tem pela frente?

Quero o público aqui bem animado,

Pois ele vive e a nós nos faz viver.

Estão montados os postes e o tabuado,

E toda a gente grande festa quer ter.

Já estão a postos, de sobrolho no ar,

Esperando o milagre que lhes vamos dar.

Sei bem do povo ganhar o favor;

Mas nunca estive em tão grande embaraço:

O que vêem não será do melhor,

Mas leram mais do que imaginar posso.

Que iremos dar­lhes hoje de novo e vivo,

De divertido e pleno de sentido?

Pois se há coisa que eu goste de ver,

É a multidão que acorre ao nosso piso,

E não se importa de mil penas sofrer

Para passar os portões do paraíso;

De dia ainda, nem quatro horas são,

Já lutam para chegar à bilheteira,

Como em tempo de fome por um pão,

Quase se matam por uma cadeira.

Milagre assim, com um público tal,

Só o poeta o faz. Amigo, vale?

Faust 00




 

Surgis de novo, figuras fugidias

Que ao turvo olhar vos mostrastes outrora.

Cabem em meu coração tais fantasias?

Serei capaz de vos reter agora?

Quereis entrar! Seja, reinai sem peias,

Vós, que subis das brumas da memória;

A minha alma renasce, emocionada

Pelo sopro mágico da vossa cavalgada.

Trazeis imagens de outra felicidade,

E ressurge muita sombra querida;

Voltam primeiros amores, velha amizade,

Como uma antiga lenda, meio perdida;

Renasce a dor, a mágoa insiste e invade

A errância labiríntica da vida,

E nomeia os amigos que a má sorte

Privou de gozos e entregou cedo à morte.

Não ouvem os meus cantos de agora

As almas para quem primeiro cantei;

Disperso o grupo da primeira hora,

Mudos os ecos que então despertei.

A turba ignota o meu canto devora,

E nem com seu aplauso me alegrei;

E os que os meus versos amaram a fundo,

Se ainda vivem erram por esse mundo.

E apossa­se de mim uma olvidada

Saudade desse reino calmo e grave

Dos Espíritos, e a minha ciciada

Canção, eólia harpa, é voo de ave;

Estremeço, ao pranto a lágrima ajuntada

O peito austero torna leve e suave:

O que possuo dilui­se na distância,

E o que fugira ganha forma e substância.

 

  saída ziqu-zira <ação> <mudar> 06 penso ser o artista à ser contemplado e...a arte feita com areia e...vibrações se refere às ...