POETA:
Procura outro escravo para te servir!
Deve então o poeta infringir
Por ti sem pejo o sagrado direito
De ser homem, da Natura o favor?
Como põe ele os corações a arder?
E os elementos, como os molda a seu jeito?
Não será a harmonia que lhe mana
Da alma e o mundo ao seu coração chama?
Enquanto a Natureza fia o fio
No seu fuso infinito, indiferente,
E um semnúmero de seres em desvario
Se faz ouvir, dissonante e demente —
Quem anima e divide a sempre igual
Sequência e a dá ritmicamente?
Quem sagra a parte no rito universal,
E a faz vibrar em acordes imponentes?
Quem desenfreia a fúria das paixões?
Quem põe em fogo nas almas os poentes?
Quem esparge na Primavera os botões
De belas flores nas veredas dos amantes?
Quem faz de folhas sem significado
Coroas de glória, para o valor distinguir?
Quem garante o Olimpo, para os deuses unir?
O génio humano, no poeta revelado.

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