domingo, 29 de setembro de 2024

Faust 00




 

Surgis de novo, figuras fugidias

Que ao turvo olhar vos mostrastes outrora.

Cabem em meu coração tais fantasias?

Serei capaz de vos reter agora?

Quereis entrar! Seja, reinai sem peias,

Vós, que subis das brumas da memória;

A minha alma renasce, emocionada

Pelo sopro mágico da vossa cavalgada.

Trazeis imagens de outra felicidade,

E ressurge muita sombra querida;

Voltam primeiros amores, velha amizade,

Como uma antiga lenda, meio perdida;

Renasce a dor, a mágoa insiste e invade

A errância labiríntica da vida,

E nomeia os amigos que a má sorte

Privou de gozos e entregou cedo à morte.

Não ouvem os meus cantos de agora

As almas para quem primeiro cantei;

Disperso o grupo da primeira hora,

Mudos os ecos que então despertei.

A turba ignota o meu canto devora,

E nem com seu aplauso me alegrei;

E os que os meus versos amaram a fundo,

Se ainda vivem erram por esse mundo.

E apossa­se de mim uma olvidada

Saudade desse reino calmo e grave

Dos Espíritos, e a minha ciciada

Canção, eólia harpa, é voo de ave;

Estremeço, ao pranto a lágrima ajuntada

O peito austero torna leve e suave:

O que possuo dilui­se na distância,

E o que fugira ganha forma e substância.

 

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