Surgis de novo, figuras fugidias
Que ao turvo olhar vos mostrastes outrora.
Cabem em meu coração tais fantasias?
Serei capaz de vos reter agora?
Quereis entrar! Seja, reinai sem peias,
Vós, que subis das brumas da memória;
A minha alma renasce, emocionada
Pelo sopro mágico da vossa cavalgada.
Trazeis imagens de outra felicidade,
E ressurge muita sombra querida;
Voltam primeiros amores, velha amizade,
Como uma antiga lenda, meio perdida;
Renasce a dor, a mágoa insiste e invade
A errância labiríntica da vida,
E nomeia os amigos que a má sorte
Privou de gozos e entregou cedo à morte.
Não ouvem os meus cantos de agora
As almas para quem primeiro cantei;
Disperso o grupo da primeira hora,
Mudos os ecos que então despertei.
A turba ignota o meu canto devora,
E nem com seu aplauso me alegrei;
E os que os meus versos amaram a fundo,
Se ainda vivem erram por esse mundo.
E apossase de mim uma olvidada
Saudade desse reino calmo e grave
Dos Espíritos, e a minha ciciada
Canção, eólia harpa, é voo de ave;
Estremeço, ao pranto a lágrima ajuntada
O peito austero torna leve e suave:
O que possuo diluise na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.

Nenhum comentário:
Postar um comentário